Em 19 de setembro de 1921, numa segunda-feira, nascia em Recife (PE) Paulo Reglus Neves Freire. O pai de Paulo queria homenageá-lo com o nome Regulus, mas, por um erro do cartório, seu nome ficou sendo Reglus.
“Fui albabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo, não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz.”
A utilização das palavras do universo pessoal sempre esteve presente na proposta de Paulo Freire para o processo de alfabetização.
“(...) Vivi um tempo intensamente dedicado a leituras (...) de gramáticos brasileiros e portugueses. Parte da parte que me cabia do que eu ganhava dedicava à compra de livros e de velhas revistas especializadas. (...). Não andava sujo, é verdade, mas andava feiamente vestido.” (FREIRE, Paulo. Cartas a Cristina. São Paulo: Paz e Terra, 1994, p. 103-4.)
Freire desistiu da profissão de advogado e aceitou o convite de um amigo para incorporar-se ao recém-criado Serviço Social da Indústria – SESI, na Divisão de Educação e Cultura, onde atuou de 1947 até 1957.
“Enquanto a prática bancária, como enfatizamos, implica numa espécie de anestesia, inibindo o poder criador dos educandos, a educação problematizadora, de caráter autenticamente reflexivo, implica num constante ato de desvelamento da realidade.” (FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido, 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p.80.)
No início da década de 1960, Paulo Freire propõe um novo método de alfabetização de adultos. Este marca uma significativa diferença em relação aos métodos anteriores para adultos, pautados em simples adaptações das cartilhas para crianças, sendo assim bastante infantilizados.
Ao invés de letras e palavras soltas, fragmentadas e descontextualizadas da vida social e da experiência pessoal dos alunos, num aprendizado mecânico do “ba-be-bi-bo-bu” ou de frases simplórias e alienantes, como “ A baba é do boi”, Freire
Sugere partir dos temas geradores, ou temas sócias colhidos do universo vocabular dos educandos, aberto à discussão coletiva nos “círculos de cultura” e aberto à análise de questões regionais e nacionais.
Por exemplo, a partir de uma imagem ampliada na parede, pelo projetor de slides, que verse sobre o tema da construção civil, o educando passa a falar da realidade do seu trabalho de pedreiro, socializando o seu saber e experiência. A discussão pode caminhar para uma ampliação desse conhecimento atual, isto é, para estudos sobre questões do trabalho e direitos do trabalhador.
A alfabetização parte do texto-contexto ou “tema gerador”. Este gera debates, pesquisa, leitura e escritas de novos textos relacionados e atividades de outras áreas do conhecimento. Do texto, são selecionadas em suas partes menores. Leitura e escritas do mundo e da palavra se sucedem.
Nesse método se fazem presentes a sincrese (visão inicial e atual do contexto) a análise (estudo, discussão e detalhamento do tema) e a síntese (visão mais ampla, aprofundada e crítica do tema).
Enquanto se alfabetizam através do exercício do diálogo dirigido de forma democrática e planificada pelo (a) educador(a), os educandos conhecem melhor o mundo e podem tomar posição frente aos problemas sociais que vão se desvendando.
Paulo Freire nos fala da posição astuta ou ingênua que omite a causalidade política e deixa de denunciar o discurso ideológico que se refere aos analfabetos como seres incapazes, indolentes e preguiçosos.
“Ninguém é analfabeto por eleição, mas como conseqüência das condições objetivas em que se encontra Em certas circunstância, o analfabeto é o homem que não necessita ler, em outras, é aquele ou aquela a quem foi negado o direito de ler.”( FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p.15)